O que acontece quando três cozinheiros de trajetórias distintas se encontram diante do mesmo desafio: construir uma experiência gastronômica em conjunto? É isso que o público vai descobrir na próxima edição do Encontro de Chefs, realizada no restaurante Terra, do Parque Gourmet. O chef anfitrião Pedro Godoy abre sua cozinha para receber Rafael Benamor, do restaurante Mahr, em Maceió, e Filipe Duarte, do Curado, em São Paulo. Três profissionais com identidades muito próprias, unidos pelo desejo de explorar a riqueza da gastronomia brasileira a partir de diferentes olhares.

Maré Cheia é o nome escolhido para sintetizar o conceito por trás desse Encontro de Chefs. A relação de troca contínua entre terra e água conduz a narrativa do jantar preparado a seis mãos, no dia 3 de setembro, a partir das 19h30. O menu em oito etapas (R$ 380, sem harmonização, e R$ 580, com harmonização) começa com três snacks assinados pelos protagonistas; segue com uma entrada fria criada por Filipe Duarte; uma entrada quente elaborada por Rafael Benamor e um prato de carne concebido por Pedro Godoy.
O ponto alto será um peixe inteiro na brasa preparado por Rafael Benamor para ser compartilhado. A finalização, com sobremesa, volta para as mãos do dono da casa. É um momento em que se reafirma a proposta do encontro: mostrar que a cozinha brasileira contemporânea se fortalece quando diferentes territórios e influências se sentam à mesma mesa. Mais importante do que acolher essa diversidade, é fazer dela um dos pilares de sua identidade.

Apesar da distância geográfica que os separa, Pedro, Rafael e Filipe compartilham muito mais do que se imagina. Pertencem à mesma geração de cozinheiros, e esse não é um detalhe sem importância. Formaram-se num momento em que a alta gastronomia passou a valorizar menos os ingredientes luxuosos e mais a simplicidade sustentada por técnica, pesquisa e originalidade. Também têm em comum o fato de terem iniciado a carreira com recursos modestos, construindo reputação de forma consistente, sem ceder a modismos nem renunciar à coerência que orienta suas cozinhas.
Esta segunda edição do Encontro de Chefs tendo o Terra como palco reforça o caminho que Pedro Godoy pretende imprimir ao projeto: impulsionar um espaço de encontros entre diferentes expressões da gastronomia brasileira. Mais do que dividir um menu, cozinhar juntos significa criar um ambiente de troca, em que chefs, equipes e público ampliam conhecimentos e descobrem novas maneiras de utilizar a riqueza de recursos que nos cerca.
A BOTECAGEM ELEVADA À CATEGORIA DE ARTE

Natural de Santa Catarina e, atualmente, à frente do Curado, em São Paulo, Filipe Duarte pertence a uma geração de cozinheiros que rejeita a falsa oposição entre comida de boteco e alta gastronomia. Para ele, o refinamento não está nos ingredientes caros nem na formalidade do serviço, mas na qualidade dos insumos, no domínio da técnica e no compromisso de entregar ao cliente uma comida verdadeiramente boa. A descontração permanece à mesa; o rigor acontece nos bastidores. É dessa combinação entre culinária afetiva e execução precisa que nasce a identidade do Curado, restaurante que defende a ideia de que simplicidade e sofisticação caminham lado a lado.
A mudança para São Paulo, cidade que reúne algumas das principais referências da gastronomia brasileira, ampliou seus horizontes e trouxe novos desafios. Em apenas sete meses à frente do Curado, Filipe percebe ter evoluído tanto como cozinheiro quanto como líder de equipe. Entre os ingredientes que melhor traduzem sua cozinha, destaca o polvo — proteína com a qual construiu grande parte de sua trajetória — e a ostra, homenagem às origens em Florianópolis, cidade que considera o berço das melhores ostras do país.
Filipe acredita que a afinidade entre as cozinhas facilitará o trabalho coletivo. Admirador de Pedro Godoy desde que o conheceu, vê nesse Encontro de Chefs uma oportunidade de aprendizado mútuo e espera voltar para São Paulo levando novos conhecimentos, especialmente sobre o trabalho desenvolvido pelo chef pernambucano com o atum. Mais do que um menu colaborativo, enxerga o encontro como uma demonstração da força de uma nova geração de cozinheiros brasileiros, unida pelo desejo de valorizar os ingredientes nacionais e oferecer ao público uma experiência memorável.
A entrada fria criada por Filipe Duarte para o Encontro de Chefs — Batatonese de Polvo — traduz bem a proposta do Curado. A combinação de batatas cozidas, maionese kewpie preparada na casa, purê de batatas e vinagrete de polvo figura entre os petiscos indicados pela revista Veja como um dos destaques da botecagem paulistana.
O MAHR COMO PONTO DE PARTIDA E CHEGADA

Rafael Benamor enxerga o Encontro de Chefs como uma oportunidade de fazer aquilo que mais aprecia na gastronomia: promover aproximações capazes de transformar. Para explicar essa ideia, recorre a uma imagem simples. Assim como o azul e o amarelo, quando se mesclam, dão origem ao verde, cozinheiros de trajetórias diversas ampliam o próprio repertório ao compartilhar a mesma cozinha.
À frente do Mahr Gastronomia, em Maceió, Rafael tornou-se um dos principais defensores dos pescados brasileiros. Na sua cozinha, a regra é intervir o mínimo possível. “Todo peixe carrega uma história”, afirma. O ambiente em que viveu, a alimentação que recebeu e a forma como foi capturado influenciam diretamente seu sabor. Cabe ao cozinheiro respeitar esse percurso, permitindo que o ingrediente se expresse da maneira mais fiel possível.
O desafio, acredita, é também cultural. Embora o Brasil possua um dos maiores litorais do mundo e uma extraordinária diversidade de espécies, o consumo ainda se concentra em poucas variedades, enquanto muitas outras permanecem subestimadas. Para Rafael, ampliar esse entendimento é uma forma de educar o paladar e valorizar toda a cadeia produtiva da pesca.
Não por acaso, espera que o evento deixe uma mensagem clara ao público: a gastronomia brasileira não precisa buscar referências apenas no exterior para alcançar excelência. Os ingredientes que produzimos, quando compreendidos e tratados com respeito, são capazes de sustentar uma cozinha contemporânea, autoral e tão sofisticada quanto qualquer outra do mundo.



