A torcida pelos representantes brasileiros na premiação do Oscar começa a se organizar. Amigos trocam mensagens, combinam onde assistir e quais comes e bebes compartilhar durante a longa transmissão televisiva, que tem início às 20h (horário de Brasília), deste domingo (15), e se estende pela madrugada adentro.

 O entusiasmo é mais do que justificado: o Brasil conquistou cinco indicações, quatro delas pelo filme pernambucano O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues). A quinta oportunidade de levar a estatueta vem com Adolpho Veloso, na categoria Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem.

 A mobilização é sinal claro do quanto a cultura desempenha o papel de agregar um povo em torno desse sentimento que chamamos de “brasilidade”.

 Cinema, literatura, moda, música, teatro, artes visuais, gastronomia são formas de contar quem somos. Cada uma dessas expressões traduz hábitos, histórias e referências que ajudam a desenhar o retrato cultural do país. Quando atravessam fronteiras — em premiações, festivais, exposições, feiras ou restaurantes — essas produções também ampliam a visibilidade da diversidade brasileira e fortalecem o vínculo das pessoas com essa herança cultural.

NOSSAS RAÍZES ESTÃO À MESA E EM TODA PARTE

 

Nem sempre a brasilidade é ostensiva no menu de um restaurante, mas, não duvidem, ela está por toda parte. Os dois italianos do Parque Gourmet – Toscana Forneria e Zio – trazem diversos exemplos de como a criatividade verde e amarela, ao encontrar influências estrangeiras, transfere novos ingredientes, formatos e identidade local.

 Um dos maiores símbolos da adaptabilidade na culinária brasileira é o filé à parmegiana, conhecido como “parmê”, muito solicitado nos cardápios das duas casas. Por aqui, o prato ganhou nova forma: o bife empanado coberto com molho de tomate e queijo gratinado é uma versão adaptada do clássico italiano Parmigiana di Melanzane, que em sua origem utiliza berinjela no lugar da carne bovina.

 No Brasil, o filé à parmegiana é geralmente servido como prato principal. Já no Sul da Itália, de onde vem a receita original, a versão com berinjela aparece tanto como entrada (antipasto, em pequenas porções) quanto como prato principal (secondo piatto). Difícil mesmo é encontrar na Itália um filé à parmegiana suculento acompanhado de espaguete, purê de batata ou arroz com batata frita. Talvez o mundo ainda nos deva um agradecimento por essa contribuição de brasilidade.

 Brasileiríssima também é a pizza de Frango com Catupiry, praticamente obrigatória em todo cardápio. No Toscana Forneria, ela é servida com a cobertura clássica: frango desfiado, queijo Catupiry, muçarela e molho de tomate. O Catupiry é um ótimo exemplo de brasilidade na gastronomia.

 Desenvolvido em 1911, no Brasil, pelo imigrante italiano Mário Silvestrini, o Catupiry acabou se tornando um dos ingredientes mais associados à culinária brasileira, extrapolando sua condição de marca para virar sinônimo de requeijão.

 Aliás, quer integração mais ampla do que o ravióli recheado com charque acebolada, purê de jerimum e queijo banhado por manteiga de sálvia ou o Steak de atum ao molho de vinho com purê de macaxeira criados pelo Zio? Mais uma vez, agradeçam à flexibilidade de nossa cultura gastronômica. O brasileiro gosta de inventar moda. E ainda bem!

QUEIRAM OU NÃO QUEIRAM OS JUÍZES: EIS OS CAMPEÕES

Se fôssemos distribuir estatuetas douradas para as categorias “Entrada”, “Prato Principal” e “Sobremesa” o resultado teria que vir da voz do cliente. É curioso observar que, ao pesquisar os “mais vendidos” entre os restaurantes do Parque Gourmet, nos deparamos com o fato de que praticamente todos os itens carregam em si esse toque de brasilidade.

 No Zio, além do parmegiana da casa levar o troféu como prato principal, a cocada de forno com canela desbanca o tiramisù na categoria Sobremesa. Entre as entradas, o vitorioso pastel de costela com muçarela ilustra bem esse encontro de culturas. Afinal, é um salgado típico das feiras brasileiras, que se combina com uma carne muito presente em preparos regionais e ganha a cremosidade de um queijo de origem italiana. Um híbrido gastronômico que traduz a mistura de influências presente na culinária do país.

 Mas até em um japonês tradicional a brasilidade encontra espaço para aparecer? Sem dúvida, e aqui vai o resultado do Sushi Yoshi para confirmar. O gyoza ganhou a primazia nas entradas e o sushi degustação de 12 peças mereceu o prêmio de “mais querido” como prato principal. Entretanto, a sobremesa é nossa: cheesecake de goiabada cascão. É a doçaria tradicional do Brasil, ligada à herança colonial, dizendo “presente!”.

 Por ser uma fruta nativa das regiões tropicais das Américas, e profundamente incorporada à culinária e à cultura alimentar do Brasil, a goiaba acabou se tornando um símbolo da doçaria nacional e um ingrediente frequentemente usado para dar um “toque brasileiro” a receitas de outras origens.

CONCENTRAÇÃO MÁXIMA DE VERDE E AMARELO

 

O Chiwake explora a culinária Nikkei, resultado da combinação entre as tradições gastronômicas do Peru e do Japão. Não à toa, os pratos mais apreciados pelos clientes seguem essa proposta: o cebiche de pescado lidera entre as entradas, enquanto o Larcomar — contrafilé de Angus grelhado na brasa com molho agridoce, acompanhado de batatas rústicas e arroz cremoso de queijos — se destaca como prato principal. Para finalizar, a sobremesa preferida é o merengue de morango.

 A expressão máxima da brasilidade no Chiwake está refletida em sua carta de vinhos: mais de 80% dos rótulos disponíveis são brasileiros. Essa iniciativa, rara e arrojada, foi adotada pelo chef Biba Fernandes desde a inauguração do restaurante no Parque Gourmet, valorizando os produtores nacionais. A seleção abrange diferentes regiões vinícolas do Brasil, incluindo exemplares do Vale do São Francisco, Vale dos Vinhedos, Campanha Gaúcha, Chapada Diamantina e Garanhuns.

 O restaurante Terra é pura fusão e brasilidade. Nosso DNA verde e amarelo está em praticamente todo o cardápio elaborado pelo chef Pedro Godoy, bem como nos elementos que decoram o ambiente. Estar no Terra é uma celebração da identidade brasileira.

 E o troféu entre as sobremesas foi para a cartola, tão pernambucana quanto o filme O Agente Secreto e seu diretor KMF. Mas, como não podia deixar de ser, quando falamos desse chef jovem e criativo, no Terra a composição desse ícone é diferente: bolo de banana com queijo manteiga, servido com sorvete de banana defumada e tuile de queijo manteiga.

 A entrada campeã também carrega uma certa brasilidade. O tartar de filé mignon é servido sobre uma rabanada feita com pão brioche. Embora a origem da rabanada seja portuguesa, no Brasil, ela se incorporou à cultura alimentar e ganhou versões próprias, tornando-se um doce tradicional das festas natalinas.

  Esse é mais um exemplo interessante de uma iguaria estrangeira que se tornou parte da identidade culinária brasileira. Para matar a curiosidade, o prato principal mais solicitado no Terra é o Chorizo ao Poivre, servido sobre nhoque ao molho de pimentas verdes e chips de batata. Carne grelhada na brasa, aliás, é outra paixão nacional. 

PAIXÃO QUE SE ESCREVE COM FOGO E BRASA

 

A Fazenda Churrascada parte da ideia de transportar para o ambiente urbano a experiência de hospitalidade e abundância associada às fazendas brasileiras. O conceito combina o protagonismo do churrasco — elemento central da cultura gastronômica do Brasil — com um ambiente que remete ao campo, valorizando ingredientes de qualidade, cortes de carne selecionados e um clima de refeição compartilhada.

 Mais do que um restaurante especializado em grelhados, a marca busca construir uma narrativa de origem rural, na qual tradição, conforto e convivialidade se tornam parte da experiência oferecida ao público. De modo que a brasilidade está entranhada na própria concepção do empreendimento.

 Antes de chegar ao modelo praticado nas churrascarias urbanas, o preparo era uma prática do cotidiano rural. Nas regiões de pecuária do sul do Brasil, trabalhadores costumavam assar pedaços grandes de carne em espetos fincados ao lado do fogo de chão, temperados apenas com sal grosso.

 A técnica simples, pensada para alimentar quem trabalhava no campo, acabou se espalhando pelo país e se transformou em um dos rituais mais emblemáticos da culinária brasileira.

 No Boteco Cia. do Chopp, outro ambiente no qual os carnívoros se sentem representados, o prêmio de Prato Principal vai justamente para a picanha servida no espeto, exatamente como muitos estrangeiros imaginam o tradicional “churrasco brasileiro”, servido com farofa e vinagrete, obviamente.

 O pão de alho leva o título de entrada mais “querida”. Essa receita simples, na qual o pão é recheado e coberto com uma pasta de alho, manteiga ou maionese e ervas, ficou indissoluvelmente conectada com o ritual de esperar a carne assar na brasa. E, novamente ela, a cartola, conquistou supremacia entre as sobremesas. No Boteco Cia. do Chopp ela pisa o tapete vermelho em seu traje clássico: banana frita com uma camada grossa de queijo manteiga, polvilhada com açúcar e canela.

A GENTE SEMPRE DEIXA UM ESPAÇO PARA A SOBREMESA

 

Famoso pelos doces irresistíveis, o Brûlée também apresenta um menu de bistrô, onde o Filé ao Roti de Rapadura desponta como o prato principal mais requisitado. Uma verdadeira celebração da cultura pernambucana e brasileira.

 O tradicional molho, feito a partir das raspas da carne assada na panela, recebe um toque adocicado com a adição de rapadura, proveniente da cana-de-açúcar. O acompanhamento, um aligot preparado com cará — produto típico da agricultura de subsistência nacional —, substitui a batata da receita original francesa. Assim, o prato une técnica e influência europeias a ingredientes e sabores tipicamente brasileiros, refletindo na culinária essa mistura cultural que é característica do país.

 O chocolate é um concorrente quase imbatível na categoria das sobremesas. É por isso que o Chocolatudo, bolo de massa amanteigada de chocolate, recheado com ganache de chocolate e, ainda por cima, acompanhada por calda de chocolate, leva o troféu de “o mais desejado” no Brûlée.

 Mas, a vitrine dessa pâtisserie traz surpresinhas que expressam esse nosso espírito novidadeiro brasileiro.  O Tiramìsù Pernambucano é um biscuit de amendoim, com crocante de café, musse de amendoim e cobertura de chocolate.

 O Bolo gelado de Ninho com calda de Leite Ninho sublinha o quanto somos ligados afetivamente pelas lembranças culinárias. O produto, da empresa Nestlé, começou a ser vendido no Brasil ainda no século XX. Com o tempo, o Leite Ninho deixou de ser apenas um produto associado à alimentação infantil e passou a ocupar lugar de destaque na confeitaria brasileira.

 Entre indicações ao Oscar e pratos que conquistam o público, uma coisa fica clara: a brasilidade não se limita a um palco ou a uma cozinha específica. Ela aparece justamente na mistura — de culturas, ingredientes e histórias — que faz do Brasil um país capaz de reinventar tradições e criar obras de arte e sabores únicos.