O mês de março no Parque Gourmet do Shopping Recife começa com o evento Encontro de Chefs, que é, ao mesmo tempo, uma homenagem às conquistas históricas das mulheres por seus direitos e uma celebração da força feminina no cenário da gastronomia. Dois restaurantes recebem convidadas de honra para um jantar especial preparado a várias mãos, que se entrelaçam no propósito de oferecer uma noite inesquecível.
No dia 05/03, o Chiwake abre as portas para aclamar a experiência de Simone Bert, precursora na implantação da culinária peruana no Brasil, e o conhecimento de Isadora Fornari, a Isadinha, pesquisadora de bebidas que traduzem a diversidade e o colorido da identidade brasileira.
No dia 12/03, o Sushi Yoshi esbanja talento com as atuações de Gi Nacarato, chef executiva da casa; Saiko Izawa, uma das melhores confeiteiras do mundo; e Yasmin Yonashiro, especialista em hospitalidade e bebidas japonesas.
UMA NOITE CHEIA DE SIGNIFICADOS
Que o chef Biba Fernandes tenha escolhido a colega Simone Bert para ocasião tão simbólica é uma questão de lógica sentimental: a marca Chiwake passou a existir a partir do modelo pioneiro do Wanchako, restaurante que carrega 30 anos de história desde sua inauguração em Maceió.
O encontro entre o pernambucano e a alagoana poderia facilmente constar como exemplo em um livro sobre “coisas do destino”. Biba Fernandes já era proprietário de um restaurante japonês em Porto de Galinhas quando, em uma de suas visitas à capital alagoana, se impressionou com a quantidade de carros estacionados diante de um estabelecimento que trazia no cardápio combinações e ingredientes até então desconhecidos para ele.
Entrou, viu, provou — e se encantou com os ceviches e tiraditos ali servidos. Instantaneamente, percebeu que a culinária andina tinha tudo para agradar também ao paladar pernambucano. Cinco anos se passaram entre as tentativas de Biba para ser aceito como trainee no restaurante que Simone conduzia ao lado do marido, José Luís. Foram nove meses de aprendizado, começando pela lavagem de pratos até ser admitido nas técnicas de preparo.
O Chiwake, inaugurado em 2007 no Recife, é primo-irmão do Wanchako. E são essas afinidades que os clientes poderão constatar no Encontro de Chefs.
SINTONIA FINA ENTRE PROFESSORA E ALUNO
Não será difícil perceber a coreografia afinada entre Biba Fernandes e Simone Bert. O diálogo entre eles, mantido ao longo de décadas, tem como vocabulário insumos e tradições ancestrais. Liberdade criativa é a sintaxe que rege ambos.
O cardápio elaborado para o jantar do dia 05/03 reflete essa simbiose, com ideias fluindo conjuntamente e se consolidando de forma orgânica. A cozinha envidraçada, localizada no centro do salão, permitirá uma vista privilegiada desses profissionais em pleno labor — um bônus visual que se soma ao que é apresentado nos pratos.
Serão seis etapas harmonizadas com drinques selecionados por Isadinha:
1. Cebiche de atum com tamarindo
2. Massa crocante de milho recheada com camarão, wasabi e molho asiático (cerveja Praya, maracujá e limão)
3. Copita de macaxeira com polvo e mini polvo frito com concassê (pisco premium, uva verde, ginger syrup e hortelã)
4. Mini lulas recheadas com salsa de ají panca (Chiwake Chardonnay)
5. Arroz de pato (Los Andes Singleton com toque de gergelim, amburana, borbulhante de caju e mix cítrico)
6. Torta gelada de manga com calda de chocolate (licor de jabuticaba Jaboo)
É interessante observar que, entre as seis combinações de alimento e bebida, apenas uma recorre ao vinho branco. A proposta da mixologista Isadora Fornari é justamente instigar o público a ousar e agir “fora da caixinha”, descobrindo novas possibilidades de encontro de sabores. Com sua adstringência e delicadeza, as especialidades peruanas convidam tanto à aventura quanto a cidadela inca de Machu Picchu.
“Eu aprendi com uma chef. Muitas das grandes referências que tenho são mulheres extraordinárias, extremamente competentes. A cozinha evolui quando existe equilíbrio, troca e respeito entre todos.”
(Biba Fernandes)
A DELICADEZA DÁ O TOM NO SUSHI YOSHI
No jantar do dia 12/03, no Sushi Yoshi, o dono da casa, André Saburó, elegantemente cede o protagonismo a três profissionais que admira profundamente. Gi Nacarato, sua chef executiva há 10 anos, faz as honras como coanfitriã, assinando a primeira entrada e o prato principal. A participação especial de Saburó acontece na segunda entrada, enquanto a sobremesa carrega a maestria de Saiko Izawa.
Giovana Nacarato é um nome que merece ser memorizado como expoente da nova geração gastronômica de Pernambuco. Nascida em Ribeirão Preto (SP) e criada em Caruaru, galgou degrau a degrau sua posição como uma das mais respeitadas profissionais entre seus pares. Sua última conquista foi ser a única brasileira — e a única mulher — entre representantes do Canadá, Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan selecionados pela fundação World Food Culture para uma imersão de cinco dias nos mais renomados restaurantes do Japão.
Coube a Giovana realizar seu intercâmbio no Den, reconhecido pelo World’s 50 Best em 2022 como o melhor restaurante da Ásia. A experiência, além de consolidar técnicas, reforçou nela o conceito de hospitalidade tão caro à cultura japonesa: a ideia de que uma refeição memorável extrapola o ato de preparar e servir alimentos. A disciplina como valor em si — e não apenas como meio para um fim — é elemento definidor desse estilo de vida.
É nesse mesmo tom que se dá a participação de Yasmin Yonashiro. Atuando como sakeliê, ou sommelier de saquê, Yasmin põe em prática o conceito japonês de hospitalidade conhecido como omotenashi — uma forma de recepcionar permeada pelo respeito mútuo entre anfitrião e convidado. Ao guiar a degustação harmonizada, compartilha um conhecimento valorizado há milênios.
A apresentação da sobremesa assinada por Saiko Izawa poderia ser precedida por rufar de tambores, tal a relevância dessa profissional que une tradição japonesa, técnica francesa e personalidade brasileira. Formada pelo Le Cordon Bleu de Tóquio e Paris, Saiko integrou equipes de restaurantes estrelados e liderou a confeitaria de casas icônicas como o Grupo D.O.M. e a Casa do Porco. Em 2017, foi eleita Best Pastry Chef Latin America pelo The World’s 50 Best Restaurants. Atualmente, é Executive Pastry Chef do Rosewood São Paulo. Haja currículo.
Mas a simplicidade é ingrediente que move Saiko, tanto na concepção de seus doces quanto na serenidade com que apresenta seu trabalho. Em conversa com André Saburó, buscou compreender as preferências do público pernambucano. Foi informada de que, pela tradição açucareira que nos rodeia, o gosto pelo doce tende a ser mais acentuado.
Entre Japão e Nordeste brasileiro, ela procurou equilíbrio. As sobremesas japonesas levam menos açúcar e gordura; as texturas navegam entre maciez e suavidade; ingredientes naturais e sazonais ganham protagonismo; e a apresentação é sempre um espetáculo visual.
O presente que Saiko traz ao Sushi Yoshi foi inspirado no clássico Yakinasu, berinjela assada. À base do legume, ela agregou maracujá e baunilha brasileira, servidos com sorvete de coco pontuado por pedaços do fruto. Uma criação que celebra a fusão de culturas e reforça o papel fundamental das mulheres na gastronomia: delicadeza, competência e inovação.
O Encontro de Chefs reafirma que celebrar o protagonismo feminino é reconhecer uma transformação que segue em curso, enriquecendo a gastronomia com diversidade, excelência e novas perspectivas.
“Há 15 anos, a presença das mulheres nas cozinhas dos restaurantes era vista como exceção. Hoje, não mais. Elas conquistaram espaço com competência e habilidades muito valorizadas, como disciplina na busca pela perfeição e um olhar detalhista.”
(André Saburó)
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